A Royal Academy of Dance (RAD) é uma das instituições de ballet mais respeitadas do mundo. Fundada em Londres em 1920, é hoje o currículo de ballet mais ensinado no planeta — cerca de 230 mil alunos fazem exames da RAD todos os anos, em dezenas de países. O que a torna referência não é só a tradição, e sim a forma como ela organiza o ensino: uma sequência de graus, cada um pensado para uma fase específica de desenvolvimento do corpo e da técnica, sem pular etapas.
Este texto explica o que é cada grade, do primeiro contato da criança com a dança até os níveis mais avançados, próximos do profissional.
Antes de começar, um esclarecimento: aqui a explicação é só sobre a estrutura da Royal Academy of Dance, o sistema internacional de graus e exames. Isso é diferente da avaliação mensal que fazemos internamente no Studio, que segue outra lógica e tem um texto próprio aqui no blog.
Como o currículo se organiza
O caminho da RAD se divide em dois grandes blocos:
- Graded (Graus) — vai do Pre-Primary ao Grade 8. É a formação de base, onde a aluna constrói técnica, musicalidade e presença de palco de forma progressiva.
- Vocational (Vocacional) — começa depois do Grade 5, em paralelo aos graus mais altos. É o caminho de quem quer estudar ballet clássico com profundidade, muitas vezes pensando em carreira.
Em cada exame dos graus, a aluna demonstra três disciplinas diferentes: ballet clássico (a base de tudo), free movement (movimento livre, mais próximo do contemporâneo, focado em expressão e musicalidade) e character dance (dança de caráter — coreografias inspiradas em danças folclóricas europeias, especialmente russa, húngara e polonesa, adaptadas para o palco e com forte ênfase no ritmo e no uso do tronco).
Pre-Primary e Primary: os primeiros passos
Pre-Primary in Dance (por volta dos 5 anos) é o primeiro contato formal com o vocabulário do ballet, mas ainda de um jeito lúdico e imaginativo. A criança desenvolve coordenação, noção de espaço, equilíbrio e musicalidade, com exercícios simples na barra e no centro. Aqui não há cobrança técnica pesada — o objetivo é construir amor pela dança e as bases mais elementares, como as primeiras posições, pliés, tendus e pequenos saltos.
Primary in Dance (por volta dos 6 anos) dá o passo seguinte: os exercícios ficam um pouco mais estruturados, ganha-se mais resistência física, e a criança começa a se preparar, sem pressa, para o formato dos exames graduados que virão. Postura, expressão e criatividade continuam no centro do trabalho.
Grades 1 a 5: a fundação técnica
É aqui que a maior parte das alunas passa o maior tempo da sua formação, e onde o ballet deixa de ser brincadeira estruturada e vira, de fato, uma disciplina técnica. A partir do Grade 1, a aluna precisa ter pelo menos 7 anos — regra da própria RAD, ligada à segurança do corpo em formação. Cada grau costuma durar de um a dois anos, dependendo da idade, da frequência às aulas e da consistência da aluna.
- Grade 1 — O primeiro grau com exame formal. A criança aprende exercícios organizados de barra e de centro, com introdução ao vocabulário clássico "de verdade": plié, tendu, glissade. Musicalidade e qualidade de performance passam a caminhar lado a lado com a técnica, junto do character e do free movement.
- Grade 2 — A técnica fica mais exigente. Trabalha-se turnout (rotação externa das pernas), alinhamento, coordenação entre braços e pernas, e sequências (enchaînements) mais complexas. A aluna começa a aprender o conjunto completo de exercícios de barra, com as duas mãos e depois com uma mão só.
- Grade 3 — Um marco importante: é a partir daqui que as aulas passam a começar na barra e concluir no centro, como numa aula clássica tradicional. Entram novos passos e terminologia (battements glissés, battements fondus, développés), e no centro surgem ronds de jambe à terre e adage (movimento lento e controlado). As combinações de saltos e giros ficam mais técnicas.
- Grade 4 — Um degrau claro de exigência física. Os exercícios ficam mais longos e demandam mais força e resistência. Aparecem pirouettes (giros) e allegro (saltos) mais elaborados, com mudanças de posição como échappés, jetés e soubresauts. Exige-se mais atenção ao detalhe e controle.
- Grade 5 — Fecha o primeiro grande ciclo e é o mais técnico dos cinco. O vocabulário se amplia bastante (sissonnes, temps levés, diferentes pirouettes), e cresce a ênfase no fortalecimento de tornozelo, com mais trabalho em meia-ponta — justamente para preparar o corpo, com segurança, para o trabalho de ponta que pode vir depois. É normalmente aqui que se decide o próximo passo: seguir para os Grades 6, 7 e 8, migrar para o caminho Vocacional, ou os dois.
Grades 6, 7 e 8: o ciclo avançado do caminho graduado
Quem continua no caminho dos graus entra num estágio mais maduro, com exigência técnica e física progressivamente maior. Grade 6 e 7 aprofundam o refinamento da técnica, a musicalidade e a qualidade de performance, com combinações mais longas e complexas.
O Grade 8 é o topo do sistema graduado — e tem uma particularidade importante: enquanto nos graus anteriores a professora conduz boa parte da aula do exame, no Grade 8 é o próprio examinador da RAD que conduz, no mesmo formato de uma prova completa. Por isso a exigência de preparo é ainda maior. Vale destacar que os Grades 6, 7 e 8 são reconhecidos oficialmente por órgãos reguladores de educação do Reino Unido e chegam a valer pontos (UCAS) para ingresso em universidades britânicas — o que dá a dimensão do peso acadêmico que esses exames carregam.
O caminho Vocacional: para quem leva o ballet a sério
Depois do Grade 5, existe uma bifurcação. Quem quer se aprofundar de verdade no ballet clássico — com foco técnico intenso e, muitas vezes, pensando em carreira ou em estudar dança em nível superior — pode seguir para o caminho Vocacional. Aqui o trabalho é praticamente só ballet clássico puro, sem o free movement e o character dos graus anteriores, e é onde entra a sapatilha de ponta para as meninas.
Um ponto sério sobre a ponta: ela normalmente só começa a partir dos 11 ou 12 anos, e apenas depois de anos de treino consistente. O motivo é anatômico — os ossos e placas de crescimento dos pés ainda estão se formando antes disso, e começar cedo demais pode causar dano permanente. A prontidão é avaliada individualmente, olhando força de tornozelo, estabilidade de centro, alinhamento e a capacidade de manter a técnica correta sob a exigência extra da sapatilha. Nem toda aluna estará pronta na mesma idade — e isso é absolutamente normal.
Os níveis do Vocacional, em ordem, são:
- Intermediate Foundation — O primeiro nível vocacional, feito para quem concluiu o Grade 5. A aula fica mais intensa e o foco recai sobre os detalhes da técnica clássica. É aqui que o trabalho de ponta é formalmente introduzido.
- Intermediate — Exige combinações mais complexas, com maior dificuldade técnica, dinâmica e musicalidade. Entra vocabulário avançado (chaînés, brisé, entrechat quatre, fouettés, pirouettes duplas) e a aluna começa a precisar dominar a terminologia francesa do ballet.
- Advanced Foundation — Aprofunda a técnica e a força de ponta, preparando o corpo e a maturidade artística para os níveis mais altos.
- Advanced 1 — Nível de alta exigência técnica e de performance, já muito próximo de um padrão pré-profissional.
- Advanced 2 — O ápice da técnica vocacional. Costuma exigir mais de um ano de preparo para um único exame, e nem todas as alunas estarão prontas ao mesmo tempo.
- Solo Seal — O nível mais alto de todos, geralmente trabalhado de forma particular e com pré-requisito de ter passado o Advanced 2 com distinção. É um selo de excelência.
Como funciona o exame
Independentemente do grau, a lógica do exame é parecida. Ele acontece uma vez por ano, com um examinador oficial da RAD avaliando a aluna — presencialmente ou, em alguns casos, por vídeo. Nos graus, a prova costuma ser feita em pequenos grupos (geralmente até quatro alunas), num ambiente preparado como sala de exame. A correção fica mais rigorosa quanto mais alto o grau.
A nota final cai em três faixas:
- Pass (40 a 54 pontos)
- Merit (55 a 74 pontos)
- Distinction (75 a 100 pontos)
Ao final, a aluna recebe um certificado oficial com o resultado, além de um relatório detalhando o que foi bem executado e o que precisa de mais atenção — um retorno técnico valioso, vindo de fora da escola.
Há um ponto que vale reforçar: só um professor registrado na RAD pode inscrever alunas nesses exames. Não é qualquer escola que pode oferecer isso. É por essa razão que a validação vem de fora — não é a própria escola se autoavaliando, e sim um examinador internacional atestando o nível técnico da aluna.
Por que essa estrutura importa
Cada grade tem um propósito técnico específico, uma exigência de idade e um motivo para existir naquela ordem. Não é um nome aleatório: é um degrau dentro de um sistema internacional com mais de 100 anos de história, desenhado justamente para desenvolver força, técnica e expressão respeitando o corpo em cada fase. Quando uma aluna avança de grau, esse avanço tem peso real — é reconhecido fora do Studio, por uma instituição de referência mundial.
Dúvidas sobre em qual grade uma aluna está, ou qual o próximo passo dela, podem ser esclarecidas diretamente com a Luana, responsável técnica pelo acompanhamento de cada turma.
— Silvio
