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Ballet de Repertório #1: La Fille mal gardée, a comédia mais antiga ainda em cena

Quando pensamos em ballet clássico, a imagem que vem à cabeça costuma ser sempre a mesma: cisnes, tragédia, um amor impossível e um final que faz a plateia chorar. Pois o primeiro balé da nossa nova série quebra essa regra logo de cara — e prova que o repertório clássico também tem espaço para o riso.

Bem-vinda à nossa série Ballet de Repertório, onde vamos abrir as cortinas dos grandes balés da história, contar suas histórias, mostrar seus momentos mais famosos e, principalmente, entender o que cada um deles ensina a quem está aprendendo a dançar. Começamos por uma pequena joia cheia de bom humor: La Fille mal gardée.

Um balé mais antigo que a Revolução Francesa

La Fille mal gardée ("A Filha Mal Guardada") estreou em Bordeaux, na França, em 1º de julho de 1789 — apenas duas semanas antes da queda da Bastilha, o marco do início da Revolução Francesa. Foi criado pelo coreógrafo Jean Dauberval, que teve uma ideia revolucionária para a época: em vez de colocar no palco deuses, ninfas e nobres — os personagens "nobres" que dominavam o balé da corte —, ele decidiu contar a história de gente comum, camponeses do campo francês.

Isso pode parecer pouco hoje, mas foi ousado. Dauberval trouxe o povo para o palco do balé pela primeira vez de forma central, e é por isso que muitos historiadores da dança consideram La Fille mal gardée o balé mais antigo ainda em repertório ativo no mundo. Mais de dois séculos depois, ele continua sendo apresentado por grandes companhias — sempre arrancando gargalhadas.

A versão que o mundo conhece hoje

A montagem mais famosa e mais apresentada atualmente é a coreografia de Frederick Ashton, criada em 1960 para o Royal Ballet, em Londres. Ashton é um dos coreógrafos mais importantes da história do balé inglês, e a versão dele deu ao balé o charme, a delicadeza e o humor que conhecemos hoje.

A música também tem uma história curiosa: ela é baseada na partitura que Ferdinand Hérold compôs em 1828, depois rearranjada por John Lanchbery para a versão de Ashton. É uma trilha leve, alegre e melodiosa — combina perfeitamente com o tom de comédia da história.

Uma história simples e cheia de graça

O enredo é fácil de acompanhar, mesmo para quem nunca viu um balé na vida:

Lise é uma jovem camponesa apaixonada por Colas, um rapaz trabalhador e charmoso. O problema é a mãe de Lise, a Viúva Simone, que tem outros planos: quer casar a filha com Alain, o filho bobo e desajeitado de um vinicultor rico da região — só de olho no dinheiro da família.

O balé inteiro gira em torno dessa confusão: Lise e Colas tentando ficar juntos, a Viúva Simone tentando separá-los, e Alain aprontando trapalhadas pelo caminho. É uma comédia de costumes, cheia de mímica, mal-entendidos e perseguições divertidas — bem diferente do clima de Giselle ou O Lago dos Cisnes, aos quais a gente já está acostumada. E, claro, tudo termina em final feliz: o amor verdadeiro vence.

Os momentos mais famosos do balé

Alguns detalhes de La Fille mal gardée viraram marca registrada e são esperados pela plateia a cada apresentação:

A Dança dos Tamancos (Clog Dance) A Viúva Simone — tradicionalmente interpretada por um bailarino homem, em travesti, seguindo uma antiga tradição do papel cômico — dança usando tamancos de madeira, marcando o ritmo com o barulho dos sapatos no chão. É puro humor de caráter, um momento de comédia física que não depende da técnica clássica "pura", mas de tempo cômico e presença de palco.

O pas de ruban (a dança da fita) Este é o momento mais fotografado e mais romântico do balé. Lise e Colas dançam um dueto usando uma longa fita rosa, entrelaçando os braços e o corpo em desenhos no ar — laços, corações, teias. É um símbolo lindo da união dos dois, e uma das imagens mais reconhecíveis de todo o repertório clássico.

As galinhas. Na montagem de Frederick Ashton, é comum ver galinhas no palco durante a cena da fazenda, no início do balé. É um detalhe curioso e cheio de vida que sempre arranca risos e surpresa da plateia, e reforça o clima rural e caseiro da história.

O que este balé ensina a quem está aprendendo

Aqui chegamos na parte que mais importa pra gente, no Studio.

La Fille mal gardée é um lembrete precioso — para as alunas e para as mães — de que ballet clássico não é só sobre ser leve, etérea e séria. É também sobre atuação, comédia, personagem, tempo cômico e presença de palco. A Viúva Simone, com seus tamancos e suas trapalhadas, exige da bailarina tanto quanto uma variação técnica exige: só que num outro tipo de habilidade.

E essas habilidades a gente trabalha desde a Baby Class, muito antes da primeira sapatilha de ponta. Quando uma criança de 4 anos aprende a "ser uma florzinha" ou a "acordar como um gatinho" numa aula, ela está dando os primeiros passos exatamente nesse tipo de expressão que, lá na frente, faz a diferença entre executar um passo e contar uma história com o corpo.

Na nossa metodologia, mímica e expressão entram na avaliação mensal desde os primeiros níveis, lado a lado com a técnica. Porque uma bailarina completa não é só quem faz o movimento certo — é quem também emociona, diverte e comunica quem está assistindo.

Onde assistir

Se quiser assistir La Fille mal gardée, vale procurar gravações das montagens do Royal Ballet (a versão de Ashton), várias companhias disponibilizam trechos oficiais em seus canais. É um ótimo primeiro balé para crianças, justamente por ser curto de entender, colorido e engraçado, sem as partes mais dramáticas ou assustadoras de outros clássicos.

Esse foi o primeiro post da nossa série sobre os grandes ballets de repertório. No próximo, vamos abrir as cortinas de outro clássico cheio de surpresas, fica de olho para não perder.

E se sua filha ainda não vive essa história de perto, que tal começar? Venha conhecer uma aula experimental gratuita e descobrir como a gente forma bailarinas completas — técnica, expressão e alegria de dançar.

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